In Memorian: Entrevista com o folclórico ex-prefeito Aloisio Partala; fatos pitorescos e divertidos que marcaram sua trajetória em Papanduva desde a criação do município.

Em uma conversa divertida, o ex-prefeito concedeu entrevista ao Correio do Contestado em 2015. Deixamos aqui a nossa homenagem, republicando a entrevista na íntegra.

“Seu” Partala compareceu gentilmente até a nossa redação onde, num bate papo alegre e descontraído, nos contou um pouco da sua vida profissional e política, permeada de fatos divertidos e importantes que deixaram a sua marca à frente da administração municipal.

Mauro J. Furtado Melo (in-memorian)- Seu Partala,obrigado por ter vindo. Sua visita nos deixa honrados e esta entrevista, com certeza, marcará, também, muitos pontos na nossa trajetória jornalística.

Aloisio Partala (in-memorian)- – Muito obrigado, Mauro. Fique à vontade para fazer as perguntas que quiser.

Mauro – Queremos falar basicamente da sua administração. O senhor, como prefeito de dois mandatos, é responsável por boa parte do “desenho”, do mapa de Papanduva como a vemos hoje, inclusive a avenida Papa João XXIII que acabou alavancando fortemente o desenvolvimento da cidade. Pode nos contar como foi o desenrolar dos acontecimentos desde que o senhor se tornou um homem público do município?

Partala – Eu vim para Papanduva, então Distrito do Município de Canoinhas, em 1952. Em 11 de abril de 1954 houve a emancipação política do Município, quando fiz parte de um grupo liderado pelo falecido Jahir Damaso da Silveira, formado por cidadãos como José Guimarães Ribas, Jovino Tabalipa, Intendente na época, Paulino Furtado de Melo, José Reva; José Zadorozny,que tinha o cartório aqui, colaborou muito também; Esmeraldino Maia de Almeida, Alfredo Lopes de Oliveira,Otávio Pechebella,entre outros. O saudoso Jahir, que tinha um caminhãozinho, tomava a frente do movimento; nós íamos para Canoinhas, na Câmara de Vereadores, na carroceria do seu caminhão. Ele me encarregou de fazer uma Bandeira. Ele disse: – Partala, invente uma Bandeira. Então eu fiz uma bandeira de pano branco…Foi autorizado criar o município, junto com Monte Castelo, hoje desmembrado. Foi realizado um plebiscito para decidir se emancipava o Distrito. Então, com esses mesmos homens bons e tantos outros, havia no interior muitos outros homens bons interessados na criação do Município, cuidamos para que fosse aprovada a emancipação. Foi importante para mim participar desse movimento, eu era o mais novo, tinha 30 anos, acompanhava os mais velhos. Eu inventava os dizeres: “Queremos a independência de Canoinhas”.

Chegamos na Câmara, em Canoinhas, quando José Reva discursou, Esmeraldino Maia de Almeida, seu Jahir, seu Alfredo Lopes, aí pediram que eu também falasse alguma coisa, eu falei então: “Hoje é uma grande alegria estarmos aqui para pedir a criação do Município”. Então foi autorizado pela Câmara, mas nós fomos umas três viagens para lá, não foi fácil, eu com aquela “bateira” em cima…

Mauro – Em cima do caminhão do Seu Jahir?

Partala – Isso. Nós chegávamos lá todo empoeirados, era estrada de chão, de barro e poeira.  Mas era divertido.

Mauro – De terno e gravata?

Partala – Não. Eu sempre gostei de terno e gravata, mas nessas viagens em cima da carroceria do caminhão não dava pra ir de terno. Então, afinal, aconteceu que foi criado o município, no dia 11 de abril de 1954. O Senhor Esmeraldino Maia de Almeida foi nomeado, por decreto do governador, o primeiro prefeito do novo município.

Mauro – O primeiro prefeito eleito foi o senhor Jeca Ribas. O senhor lembra com quem ele disputou essa eleição?

Partala – Foi com o Senhor Floriano de Paula Xavier, que era farmacêutico aqui.

Mauro – Jeca Ribas era do PSD. E o “Seu” Floriano era de que partido?

Partala – Ele era do PTB. Eu votei no Jeca Ribas porque o meu companheiro de farmácia era muito louco, tinha um sistema nervoso tão aprofundado que não dava pra acreditar nele, vivia dando tiros por aí…(risos).

Mauro – A UDN ainda não existia?

Partala – Não. Aí foi criado o diretório da UDN, com o Senhor Jovino Tabalipa, para a segunda eleição. Participei do diretório por causa do Senhor Aroldo Carneiro de Carvalho e Benedito Terézio de Carvalho, que eram os líderes da região na época, então a gente acompanhou. Tinha o Alóis Karazinski, Narciso Guebert, Seu Paulino Furtado, teu pai, todos na UDN. Foi aí que nasceu o “Partala” para a política de Papanduva. Havia vários partidos, fui convidado por várias lideranças, e o meu adversário na minha primeira eleição foi o Zico Zadorozny.  Fui eleito em 1966, eu estava na UDN por causa também do Antonio Carlos Konder Reis; ajudei ele contra o Ivo Silveira, que era presidente da Assembleia e ganhou a eleição; ficamos meio assim, mas continuamos na administração, seja o que Deus quiser; aí houve um convite, no dia 8 de maio de 66, dois anos após a revolução de 31 de março, para participar de um congresso de prefeitos em Porto Alegre, com 700 prefeitos da região sul , Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná e Mato Grosso, que naquela época era um só Estado; tivemos uma boa aula lá, onde a gente viu e reconheceu que estava certo o professor que subiu na Tribuna; ele falou uma porção de coisas boas: que igreja não pode ter escadarias, senão é proibido o paraplégico entrar, uma pessoa de muletas, até uma noiva, alguém pode pisar no véu dela atrás e derrubar a noiva; ele colocava as coisas à limpo; uma praça, um jardim, como chamavam naquele tempo, não podia ter meio fio, porque uma pessoa de idade, uma criança, alguém de bicicleta poderia cair e bater a cabeça no meio fio e se machucar, ou até morrer. Ele dizia: “que plantem flores no lugar do meio fio, se uma pessoa cair, que caia nas flores”. Foi uma aula muito boa daquele professor. Depois, ele começou a malhar as Forças Armadas, onde estava no comando o Castelo Branco; ele questionava “por que os militares tomaram conta do Brasil?” Dizia que militar não sabe nada de administração, só sabe dar tiro de canhão; combateu muito os militares o tal professor. Daí eu invoquei com aquilo porque eu participei da Revolução, eu era um revolucionário. Muita gente desaprovava a revolução de 31 de março de 1964 e diziam que os militares não prestavam e aquilo me irritava, achei que era o momento de dizer alguma coisa, então pedi um aparte para falar. O professor era o Ministro de Minas e Energia, General Mauro Tibaldo. Eu falei para ele: “professor, o senhor está na contramão, o senhor não conhece o Brasil, o Brasil está sendo roubado, enganado, no Brasil paga-se até imposto de bicicletas e de carroças”. Eu disse: “eu sou revolucionário, eu faço parte deste governo que o senhor diz que só sabe dar tiro de canhão, eu não acredito nisso, eu só acredito que o senhor não é brasileiro, o senhor se mude para o Uruguai ou Paraguai e vá de mala e cuia pra lá e deixe nós em paz aqui”.

Logo chegou a hora do café e o prefeito de Canoinhas era o João Colodel, o de Mafra era José Schultz, os dois eram advogados; o João Colodel me disse: – você vai pra cadeia, Polaco! Então eu disse pra ele: – se eu for para a cadeia, você que está em Canoinhas, mais perto de Papanduva, avise lá a minha família.

Mauro – Nessa época, dois anos após a revolução, já havia alguma divisão no comando das Forças Armadas, alguma dissidência entre os militares?

Partala – Não, não, você já vai entender; eles estavam jogando um verde para colher maduro, queriam conhecer os prefeitos e ver quem estava contra e quem era a favor dos militares.

Aí vieram dois seguranças de crachá e me conduziram para a sala do orador, que era o General Mauro Tibaldo. Aí eu perguntei: – eu vou para a cadeia mesmo? Os companheiros estão dizendo que eu vou para a cadeia. O senhor tem a chave da cadeia? Eu não costumo dar mão de obra pra ninguém, a não ser que o senhor me dê a chave e diga onde é a cadeia, eu me fecho e jogo a chave pela grade.

Ele respondeu: – não, não, jovem prefeito, entre aqui.

Eu tinha só 30 anos, era o prefeito mais jovem entre os 700 que estavam lá. Ele disse: – olha, está aqui a minha identidade, sou o Ministro de Minas e Energia, General Mauro Tibaldo, só que você não comente nada com ninguém: nós estamos aqui para conhecer os prefeitos e saber se existe manifestação contra a administração da República. O senhor não vai embora sem levar uma carta para a 5ª Região Militar, em Curitiba. Não comente nada. Os três professores que estão aqui são militares.

Esse congresso começou na terça feira e foi até sexta. No final eles me deram a carta, fechada, para o comandante da 5ª Região Militar. Eu não sabia o que estava escrito, mas peguei o meu saco de roupas, naquele tempo não tinha mala, não havia onde comprar, e fui direto de Porto Alegre para Curitiba; me perguntaram onde ficava a 5º Região Militar, eu sabia, pois é em Curitiba, a 160 km. da minha cidade, Papanduva. Aí eu cheguei lá, um tenente me perguntou: – o que você quer? “Eu estou incumbido de entregar uma carta para o Comandante da 5ª Região Militar, não vou entregar a carta para o senhor”. Ele respondeu: – vai demorar pra falar com o comandante. – “Não tem problema, eu posso esperar, estou bem sentado, tem banheiro aqui, se for preciso posso até dormir aqui”.

Eu era meio assim, um tanto…

Mauro – Terrorista (risos)               

Partala – Terrorista! Entrava em fria, mas eu era um revolucionário, estava junto com eles. Quando o comandante viu a carta, falou – olha, prefeito, você escorou o General, Ministro de Minas e Energia Mauro Tibaldo, você escorou. – Não, eu rebati porque achei que ele estava muito errado na sua colocação, então eu escorei, mas também fui só eu que discuti contrário com o militar que estava lá sendo protegido por mim.

Da 5º Região Militar eu fui para Rio Negro, o comandante do batalhão era o Capitão Navarro, ele falou – “o que podemos fazer por você aqui eu não sei”, mas eu logo me acordei e disse: – “eu sei onde tem um maquinário bom pra mim poder trabalhar, está lá em Papanduva”; e estava mesmo, era da União, cuidado por Arthur Band, então ele fez uma carta para o Arthur. Como eu estava a pé, andando de ônibus, ele me deu um jipe e o Tenente Calvi Souza Tavares de motorista e viemos no Arthur Band, que tinha uma motoniveladora, três basculantes, que naquele tempo se chamava Tombeira, uma pá carregadeira, um trator de esteira, isso eu me lembro bem, e esse tenente entregou uma carta para o Arthur e disse – de hoje em diante esse maquinário vai ser dirigido pelo Prefeito Partala. O que mais falta aí? – Falta motorista, um está aposentado e o outro está de férias, parecia férias sem trabalhar, estava tudo parado, então esse tenente, que era engenheiro civil, Primeiro Tenente Calvi Souza Tavares e engenheiro civil; civil, mas militar (risos).

Mauro – Civil por formação na Faculdade, mas militar (risos).

Partala – Ele falou – “amanhã vou trazer dois motoristas”, e realmente trouxe. E começamos a trabalhar as idéias, discutir projetos. Ele disse, como engenheiro, lá no bairro Barro Preto: –  “aqui ficaria bom uma avenida”.

Começamos a trabalhar no campo e na sede da cidade, decidimos fazer as ruas bem largas, encontrava alguma casinha muito humilde que era fácil de transferir ou encaminhava uma verba para a indenização. Eu ia para Curitiba para ligar,telefonar para o Ministério onde fiquei conhecido pelo Ministro General para pedir verbas. Me mandaram fazer exame de sangue para levar junto com a identidade, eu tenho até hoje esse exame de sangue.

Mauro – Mas o que eles pretendiam com isso, exigir até exame de sangue?            

Partala – Era pra confirmar que, caso houvesse um desvio, um mau uso do dinheiro, que eu era o responsável por essas verbas. Foi feita uma identidade minha no batalhão. Essa identidade eu tenho. Aí começamos a trabalhar. José Reva começou a ajudar e o tenente trouxe mais um soldado para trabalhar ali e a minha falecida mulher fazia a comida para o pessoal e eles moravam ali comigo; eu morava ali perto do Toni, esse terreno hoje está vago, era uma casa grande só que eu acumulava os custos, eu não tinha nota, não tinha restaurante, não tinha nada para provar essas despesas e poder cobrar um ressarcimento; afinal de contas nós depois acabamos se contrariando com esses homens bons mesmo de verdade que eu acabei de citar, os colegas com quem nós trabalhamos para criar o município, porque eles acabaram ficando contra o alargamento das ruas, de 25 metros de largura, alegando que isto teria um custo para a prefeitura manter, e o traçado saiu como avenida para todas as ruas, com mão e contra mão, porque isso servia para a iluminação pública, o canteiro central como chamamos hoje, com o posteamento no meio, e o mapa feito pelo Tenente Calvi ficou na prefeitura; discutimos o alargamento e surgiu uma questão: como vai ficar o passeio, a calçada, de que largura? Então o tenente falou: – Partala, você tem dois guarda chuvas? – Sim, tenho! – Então você vai para lá e eu venho de encontro.

Mauro – Se passassem os dois sem se esbarrar, a largura estaria boa…

Partala – É, então ficou sendo de 2,5 m. de largura e definiu-se o alinhamento das ruas. Hoje tem construções mais para trás, com 5 metros, mas o alinhamento era esse. Mas eu levantei uma parada pesada, porque depois houve um abaixo assinado, com 47 assinaturas, onde o teu pai, Mauro, Seu Paulino, concordava comigo. Ele achava que tinha que ter as ruas assim, mas essas 47 pessoas não concordavam e eu mostrei isso ao comandante do Batalhão; o Tenente Calvi viu a pressão que eu estava sofrendo e foi falar com o comandante, o Capitão Navarro: – Olha, o pessoal não está concordando com o mapa e o arruamento que fizemos e tem um abaixo assinado lá com 47 assinaturas. Levou uma cópia do abaixo assinado, na verdade uma foto feita pelo saudoso Foto Carlos, era fotografia mesmo, não havia Xerox naquele tempo; tenho guardado até hoje o original desse abaixo assinado. Então, veja bem, enfrentei uma parada dura com o povo, depois os vereadores também se voltaram contra.

Mauro – O senhor tinha um forte apoio dos militares, isso se deve, provavelmente, ao fato de, naquela reunião em Porto Alegre, o senhor ter se voltado contra as declarações do Ministro de Minas e Energia quando este falava mal do próprio exército; o senhor defendeu a Ditadura.

Partala – Claro, foi graças à minha atitude naquela ocasião que consegui o maquinário para trabalhar e todo o apoio dos militares. Consegui inclusive que o Ministro enviasse uma verba para comprar os fios elétricos e os postes para fazer a iluminação pública de Papanduva. Ainda não havia a Celesc aqui. Havia um depósito ali onde está hoje a subestação da Celesc, no bairro São Cristóvão, e esse material ficou armazenado lá. Até recebi críticas, perguntavam:  – por que o Partala comprou todo esse fio e os postes se não tem energia elétrica na cidade? Aí todos nós batíamos no governo estadual para vir a luz de Mafra, isso vinha lá de Tubarão para Mafra, faltava vir até Papanduva. Você veja bem, Mauro, o governo militar, recebia críticas da população por causa da usina de Itaipu, diziam que o Brasil entrou com o investimento e o Paraguai só entrou com a barranca do rio, mas se não houvesse Itaipú nós hoje estaríamos no escuro. Então, veja, tinha projetos muito bons, porque tinha gente competente também no governo. Eu era contra a palavra usada pelo povo – a Ditadura, porque havia gente competente no governo. Até o falecido Juruna…

Mauro – O famoso Cacique Juruna…          

Partala – É, o Cacique Juruna foi deputado federal, ele que era um índio legítimo, foi eleito deputado federal, portanto tinha democracia para eleger deputados. Havia eleição indireta para governador, porque os militares consideravam que o povo não estava preparado para escolher os seus comandantes, então eles nomeavam três candidatos para cada Estado e o Congresso decidia por um deles. Eram três partidos, então os militares indicavam um de cada partido, o PSD, a UDN e o PTB, eram os três maiores partidos que comandavam a política.

Mauro – A nível municipal, gostaria que o senhor me ajudasse a traçar uma cronologia administrativa de Papanduva. Na criação do município, foi nomeado Esmeraldino Maia de Almeida; em seguida, o primeiro prefeito eleito pelo voto direto, José Guimarães Ribas; depois dele,Jovino Tabalipa e em seguida o senhor Brasil Alves Fagundes no chamado mandato tampão, antes do senhor assumir em 1966. O mandato tampão servia, como o nome já diz, para “tampar” um período administrativo e proporcionar uma coincidência de eleições com os níveis federais e estaduais?

Partala – Isso mesmo. Quase todo dia tinha uma eleição para prefeito em algum lugar do Brasil, então foi criado o mandato tampão para cobrir o período em que um prefeito saía, terminava o mandato, até a nova eleição que aconteceria junto com os níveis estaduais e federais. Em alguns casos esses mandatos duravam até dois anos. Aqui em Papanduva o “Seu” Fagundes ficou um ano até a minha posse. 

Mauro – Foi no mandato do “Seu” Fagundes que aconteceu aquela invasão da prefeitura, liderada pelo Padre Onofre, porque o prefeito majorou os impostos, o IPTU, a níveis elevadíssimos, deixando o povo indignado à ponto de promover essa manifestação. Usando um termo de hoje: “quebrou o pau” na prefeitura (risos). O senhor lembra disso, participou dessa manifestação?

Partala – Lembro, foi no mandato de Brasil Alves Fagundes, que era coletor na época. Depois dele foi que eu assumi o meu primeiro mandato. Disputei a eleição com o Sr. Francisco Zadorozny, o Zico, que era contador na prefeitura. Tivemos muitas dificuldades, principalmente devido ao projeto de alargamento das ruas, e os vereadores queriam o meu impeachment, queriam me derrubar. Eu só tinha um vereador do meu lado, o Olímpio Raulino Schadeck, os outros seis eram contra.

Mauro – Nessa época seu secretário da administração era o Sr. Leônidas Guebert e o Tesoureiro o Senhor Renato Krieck, estou certo?

Partala – Não, o tesoureiro era o Renato, mas o secretário de administração era o José Reva. O Leônidas Guebert foi secretário no segundo mandato.      

Mauro – Vem desse período uma questão contra a qual venho “brigando” há muito tempo. No seu projeto de alargamento das ruas e abertura de outras, havia a idéia de tornar as ruas Mafra e Sérgio Glevinski uma só via, vindo lá da Lagoa Seca até a saída para a BR 116, lá no Passo Ruim. Houve algum desentendimento entre os membros da administração e o Senhor João Schadeck decidiu construir o seu moinho de arroz no traçado da Rua Mafra, ao mesmo tempo em que Leônidas Guebert, seu secretário de administração, edificou no leito da Rua Sérgio Glevinski, ambos os “papanduvenses” bloqueando o projeto e gerando o problema atual de trânsito naquela área central da cidade. O senhor não acha que faltou um pouco de “papanduvismo” a esses senhores, que pensaram apenas no seu interesse pessoal?

Partala – Foi, foi bem isto mesmo. Aí aconteceu o seguinte: Eu NÃO dei alvará para o próprio secretário da prefeitura, Leônidas Guebert, no segundo mandato. O projeto de unificação dessas ruas já era do primeiro mandato, inclusive o Senhor Hamilton Tabalipa de Almeida construiu sua residência no alinhamento da rua projetada, assim como o “Seu” Romão, que tinha uma marcenaria também no novo alinhamento. Mas eu não dei o alvará nem para o João Schadeck nem para o “Leones” Guebert, nem para nenhuma empresa, como a Ceval, que virou Cereagro e, hoje, Big Safra, que construiu irregularmente lá próximo ao trevo. Também a Coopernorte, hoje Copérdia e o Hotel Sonáglio, para nenhuma dessas empresas eu dei o alvará, quem acabou concedendo foi o Prefeito Félix, o “Pé Grande”. No caso do “Leones”, o Félix não procurou saber os detalhes do acerto de indenização que havíamos feito. Isso passou, hoje não vai mais mudar, as construções estão lá, mas a Rua Mafra também teve outras questões além dessa. O “Compadre” Eugênio Sidoraki, que era secretário da Câmara e também mandava um pouco, havia construído no alinhamento original da Rua Mafra e ele seria prejudicado se a rua fosse mudada, pois tinha um comércio ali.

Mas a verdade disso aí, Mauro, é que eu tinha dificuldades com os vereadores por causa do chamado “plano urbanístico de Papanduva”, nome oficial documentado para o projeto. Eu só tinha o Olímpio Schadeck na situação, os demais eram oposição e eu não podia debater nenhum projeto com eles.

Mauro – Nessa época eram sete vereadores, eles não tinham remuneração, eram voluntários, trabalhavam sem ganhar. Hoje, muitos ganham sem trabalhar (risos).E, mesmo assim,faziam força para fazer prevalecer a sua vontade. O senhor tinha seis adversários na Câmara.

Partala – É, se candidatavam voluntariamente e não tinham salário. Depois andaram tentando receber alguma coisa do governo militar, mas não conseguiram. Mas eles queriam votar o impeachment e a Câmara era em cima da prefeitura, do meu gabinete eu escutava tudo o que eles discutiam lá em cima. Eles se puseram contra o plano urbanístico. Queriam cassar o prefeito porque ele “estava desequilibrado” e por tantos outros argumentos errados que existiam naquele tempo; eu prestei atenção e no dia da votação eu mandei desligar o gerador que fornecia eletricidade, administrado por uma cooperativa e doado pelo governo do Estado; mandei o rapaz que operava aquele motor dar o sinal que normalmente dava antes de desligar e apagar, deixar a cidade às escuras; ele deu o sinal e apagou e os vereadores tinham um lampião, chamado de Aladim, que usaram para manter a sessão em andamento, e cheguei lá em cima de surpresa para participar da sessão. O presidente era o Walmir Lúcio Senna e ele me convidou para fazer parte da Mesa. – Prefeito, faça parte da Mesa, tenha bondade, etc.,   – Não, não, tá bom aqui. Eles pararam a discussão, porque estava encaminhado um requerimento para eu deixar a prefeitura, para me cassar. – Não, não, continua! Faça parte da Mesa, prefeito…

Tinha umas duas ou três cadeiras de palha ali e eu levantei uma cadeira junto para sentar perto da mesa, mas resolvi tornar aquela questão mais indigesta. Peguei a cadeira e desci em cima do lampião Aladim, apaguei e pegou fogo ali, (risos) caí do lado direito e eu tinha entrado armado com um 38 e bastante bala; eu caí, o lampião apagou e eu dei dois tiros no canto; os vereadores foram todos embora…(risos).

Mauro – Isso já no segundo mandato?

Partala – Não, no primeiro, foi quando nós começamos a demarcar as ruas. Daí o José Reva correu e pulou a cerca ali para o pátio do Evaldo Grabowski, que morava quase na frente da prefeitura, e o Evaldo tinha um cachorro muito brabo e o cachorro agarrou o Reva na perna, ele tinha calça jeans, foi a sua sorte, não feriu com muita gravidade. Aí o Evaldo Grabowski saiu para ver o que estava acontecendo, porque eu tinha dado mais um tiro pra cima, e os vereadores se espalharam todos.

Mauro – O José Reva pulou a cerca do Grabowski para se proteger dos tiros? (risos)

Partala – É, ele pensou que eu ia atirar nele. O Evaldo foi lá acudir o Reva e o cachorro não largava a perna dele, aí eu cheguei mais perto e dei mais um tiro pra cima, porque o cachorro normalmente tem medo de tiro, só assim largou a canela do Reva.

Mauro – Aposto que depois o senhor foi fazer curativo na perna do adversário…(risos).

 Partala – Só tinha a minha farmácia, então eu disse:  – Reva, vamos lá em casa pra fazer o curativo. Evaldo, vamo junto, e ele foi, pra nós não brigar no caminho… (risos);depois de terminado o serviço o Reva me perguntou quanto era a despesa. Eu disse que ele teria que voltar no dia seguinte para ver como estava e fazer mais um curativo. Eu dei um ponto provisório, que eu tenho até hoje; são dois tipos de ponto americano e eu adquiri os dois para uso na farmácia, tenho até hoje. O estrago era meio grande, então precisava trocar o curativo; ele perguntou – quanto é? – Não, amanhã você volta aqui, mas não custa nada. Na outra vez se for mais, daí eu cobro…Ficamos inimigos de novo com o Reva (risos). Ele tá me desejando mal até hoje, decerto. Êtia barbaridade …(risos). Mas depois foi tudo pra Justiça…

Mauro – Bem no começo, na época da criação do município, vocês eram amigos, estavam todos abraçados, inclusive o Seu Jahir Damaso da Silveira; viraram inimigos, fizeram as pazes por causa da mordida de um cachorro e voltaram a ser inimigos porque ele achou que o senhor estava desejando uma mordida maior na próxima vez…Realmente, a vida dá muitas voltas!!!

Partala – (Risos) – É, foi isso mesmo.

Mauro – O Walmir e o Nataniel também se tornaram seus inimigos durante algum tempo?

Partala – Nessa época, sim. Mas, como você disse, a vida dá muitas voltas…Mas não era inimigo, eram adversários políticos, era gente inteligente, que eu considerava muito.

Mauro – Inimigo é quem quer se matar, vocês eram todos apenas adversários políticos, talvez com algumas idéias meio criminosas, mas não eram inimigos…(risos).

Partala – Nós todos queríamos conduzir os destinos do município, que na época do desmembramento abrangia Monte Castelo. O Sr. Alfredo Lopes de Oliveira, lá do Lageadinho, inclusive, foi candidato contra o Sr. Jovino Tabalipa, que ganhou a eleição.

 Mauro – O senhor entrou em 1966 e ficou até 1970, dando lugar ao Dr. Rubens Alberto Jazzar, Dr. Rubinho, como era chamado, que ficou só três anos, até 73, para proporcionar a coincidência de mandatos. Com quem o Dr. Rubens disputou a eleição em 1970?

Partala – Foi com o Jeca Ribas e o Seu Jahir Damaso da Silveira de vice. Era o “Florão”. E o Florão perdeu para o Rubinho.

Mauro – Eu lembro de uma passagem interessante que aconteceu comigo durante o seu primeiro mandato. Eu era bem jovem, estudava em Curitiba e estava aqui, de visita à família, e fomos a um baile no Clube Papanduvense. Meu pai sempre tinha muito orgulho de me apresentar aos seus amigos e me chamou para uma mesa onde estavam o senhor, o Dr. Rubens, o Tenente Nelson, Seu Esmeraldino e ele, Paulino Furtado.

E eu, querendo ser gentil, ou puxa saco, (risos) cumprimentei-os dizendo:- “ Eis aqui o atual e o futuro prefeito de Papanduva”, me referindo ao Dr. Rubinho. Não havia nada alinhavado sobre uma eventual candidatura dele, até porque ainda estava longe a eleição. Fato é que acertei na mosca, apenas porque raciocinei que ele poderia ser o próximo prefeito. Atirei no escuro e acertei o alvo.

Partala – Eu lembro disso, tem até uma foto de nós todos juntos naquela mesa no baile. Você adivinhou. Nessa eleição do Dr. Rubens já tinha o candidato a vice prefeito, antes não tinha, por economia. Não havia dinheiro para pagar um prefeito e um vice. No caso de impedimento do prefeito, quem assumia era o presidente da Câmara. Foi nessa época também que surgiu a campanha “Ouro para o Bem do Brasil”, com o objetivo de arrecadar fundos para pagar as dívidas que o governo militar herdou de Jânio Quadros e de João Goulart.

Mauro – De fato. Aqui, o movimento era coordenado pelo “Seu” Esmeraldino que esbravejava aos quatro cantos pelo seu alto falante instalado na varanda da sua casa, ali perto de onde está o Fórum, hoje. Graças ao seu poder de persuasão muita gente deu a dentadura para salvar a ditadura. Dentaduras de ouro, claro. (risos). Ele também anunciava casamentos, bailes, falecimentos, hora da Missa, recados diversos, sempre com a abertura daquela música tradicional da “Voz do Brasil”. Era bem patriótico, só que às vezes ele se empolgava tanto com seu patriotismo que esquecia de mudar o tom da voz para passar da propaganda da ditadura para um aviso de falecimento…ficava meio engraçado, mas os parentes do falecido não gostavam muito…(risos).

Partala – Ele tocava tudo que tinha na “Voz do Brasil”, dava as notícias que vinham da capital; inclusive retransmitia do rádio a “Voz do Brasil” na íntegra. Era reconhecido como o serviço de som da cidade, uma espécie de emissora de rádio. Até recebeu um título da 5ª Região Militar pelos serviços de divulgação prestados ao “bem comum da população”. Ele tinha um filho jornalista em Curitiba, o Dino Almeida, que ajudava também nessas coisas.

Mauro – Tive o prazer de conhecer o Dino, era considerado o principal colunista social do Paraná, trabalhando para a Gazeta do Povo e outros jornais de todo o Brasil. Carequinha como o pai, desde cedo…

Partala – E ele tinha um prestígio muito grande, inclusive com Antonio Carlos Konder Reis; eu também tinha um prestígio importante com esse governador, que foi nomeado depois que perdeu a eleição anterior pelo voto popular para Ivo Silveira. Konder Reis e Colombo Salles foram nomeados.

Mauro – Houve também Henrique Córdova, nomeado vice governador, mas que assumiu em 1982 na renúncia de Jorge Borhnausen.

Partala – É mesmo, mas foi nomeado vice e depois assumiu, como você falou.

Mauro – Seu Partala, o senhor tem hoje 83 anos, nasceu em São José, então município de Itaiópolis, hoje Santa Terezinha; veio para Papanduva em 1952; não adivinhei, foi o senhor que falou…O senhor foi enfermeiro do Batalhão, veio para aqui como enfermeiro e farmacêutico. Pode nos contar um pouco mais da sua trajetória profissional?

Partala – Eu fui enfermeiro do Batalhão, mas eu me formei em Enfermagem e Farmácia em Curitiba, na Faculdade; trabalhava no Hospital São Lucas, estudava à noite; tinha a Enfermagem que o Corpo de Bombeiros dava, na verdade o curso de primeiros socorros, mas que diziam enfermeiro; aí eu fiz Farmácia, concluí em 1951 e vim para Papanduva em 1952.

Mauro – Quando o senhor chegou aqui havia um farmacêutico, o “Seu” Floriano de Paula Xavier; o senhor comprou a farmácia dele? Ele morreu logo em seguida ou foi embora para outra cidade?

Partala – Não, quem comprou a farmácia dele foi o Hess, marido da dona Tereza Hess, ela está viva ainda. Depois eu montei a minha.

Mauro – O senhor conviveu com Seu Floriano por algum tempo aqui em Papanduva, então?

Partala – Sim, tivemos até algumas pendengas políticas (risos) 

Mauro – E a história do Promotor, Seu Partala…?

Partala – Pois é. Lembra que eu falei que aquela história dos tiros na Câmara foi parar na Justiça? Então veio um Oficial de Justiça do Fórum de Itaiópolis, o José Ribas, e me intimou. Na verdade nós estávamos planejando o quadro urbano, houve aquela confusão toda com o José Reva, que coloquei à disposição da Câmara, e fiquei sem secretário. Veio um funcionário da Câmara de Canoinhas para me ajudar, mas eu estava em má situação, e a pergunta que eu mesmo me fazia era essa: – “E agora, prefeito, o que você vai fazer?” Eu tinha o projeto do quadro urbano pronto, só faltavam os nomes das ruas, porque isso é alçada da Câmara, mas o resto estava pronto, deve ter sido extraviado pela própria prefeitura, não sei qual prefeito perdeu essa documentação, sumiu. Fiquei meio sozinho, atrapalhado, sem tempo para ir ao Fórum em Itaiópolis, então escrevi no verso da intimação uma justificativa ao Juiz, pedindo para marcar uma outra data para a audiência, pois eu estava muito atarefado e não poderia comparecer naquela data marcada. Tinha dois Oficiais de Justiça lá, depois veio um outro, esqueci o nome dele, mas veio outro. Aí eu mudei um pouco o vocabulário e disse que, a qualquer momento, a ser combinado, eu compareceria lá, para cumprir a intimação, mas não adiantou: veio o Promotor de Justiça. Esse Promotor veio num dia de frio e garoa, ele com óculos escuros, com um gipinho, parou lá na frente da prefeitura, no barro, e desembarcou; eu vi ele desembarcar e já imaginei que fosse alguma novidade a respeito do Fórum; eu o conhecia, diziam que era um promotor, mas eu não tinha certeza, nunca tinha conversado com ele; ele entrou na prefeitura, tinha uma cadeira lá, mandei ele sentar, e ele falou: – o senhor é o prefeito? – Sim, sou o prefeito, e o senhor, o que deseja? – O senhor está intimado. – Mas por que, qual o motivo? – O senhor está intimado porque o senhor desobedeceu a Justiça de Itaiópolis duas vezes. Aí eu perguntei: – o que você é, um oficial de Justiça? – Não, eu sou Promotor. – Então tire esse óculos para ver se o conheço.

Ele tirou o óculos. Agora quero ver a sua identidade de promotor. – O senhor vai me desculpar, mas eu não trouxe, porque a Comarca é bem próxima aqui.- “O senhor não é conhecido aqui, o senhor vá embora antes que eu chame a Polícia e mande lhe prender. O senhor pra mim é um forasteiro e se suma daqui”.

Ele levantou e saiu. Isso era próximo do meio dia, umas onze e pouco. Isso era no tempo do Catarina (Catarino Geraldi) e ele estava construindo ali, tinha uns montes de areia e de pedra e eu passava sempre ali para ir para casa.

Mauro – A prefeitura já era aqui, no local onde está hoje, ou lá perto do bar do seu Catarino?

Partala – Não, já era aqui, o Jeca e o Jovino construíram a prefeitura, mas não pagaram, fui eu que paguei a construção. Pedi essa verba para o governo federal, tive que provar através de ofício, mandei vários ofícios, o Aroldo Carneiro de Carvalho foi lá buscar a verba para pagar os pedreiros de Canoinhas.

Mauro – Então foi o governo federal que acabou de pagar a obra da prefeitura?

Partala – É, foi. Mas, voltando ao promotor, ele saiu da prefeitura e foi lá no Catarino, tinha uma porta de entrada e uma de saída, acho que até hoje é assim, aquela porta no canto; eu estava passando para ir almoçar em casa e vi aquele gipinho parado ali. – Puta la merda, o homem está aí. – E agora!!!

Eu tremi. Eu era valente, mas não tanto assim, não para aquela hora, aquela situação (risos).

Mauro – Valente, mas sem exageros…(risos).

Partala – É, e o pior é que o homem me chamou lá: – Prefeito, venha tomar um aperitivo, venha tomar uma pinga com limão! E eu entrei, peguei bobeira e entrei, queria ver se era promotor mesmo, eu até tinha um tanto de dúvida, estava meio assim, diz que era, mas não era. Então ele ofereceu a caipirinha, levantou a blusa e pegou um 45 e mexeu a pinga com o cano do revólver; tinha uma porção de pessoas ali, uns caboclinhos de faca na cinta, naquele tempo usavam muito levar a faquinha na cinta, eu peguei e tomei.

Ele perguntou, gritando – O que que achou, gostou ou não gostou?

– Pois olha, de gosto tá boa, só que precisa ser mais…mais mexido. Ele puxou do 45 e mexeu de novo com o cano.

Eu disse – Agora para os nossos companheiros, nossos amigos aqui. Quando ele se virou para oferecer aos outros, eu vazei (risos). Cheguei em casa, ligeiro, eu tinha um 32 e um 38, enchi de bala, o 32 de um lado, o 38 do outro, vesti uma blusa, pois estava frio naquele dia, daí fui na casa do Cabo Adálio, que era o delegado, fomos no Bugre, o Bugrão, um policial grande e forte, tinha mais de cem quilos; fomos no Gonçalves, o Otávio Gonçalves, tinha um outro Gonçalves que era filho do Antonio Gonçalves, juntei esses soldados todos, dei o 38 para o Bugrão, o Cabo Adálio tinha o dele; cada um tinha cassetete, daí nós descemos, era aquela estrada velha ainda, e tinha um restaurantezinho bem na esquina, quase na BR 116, que era do pai do Romilton Almeida; foi construído pelo sogro do prefeito Tuca, Seu Alcides Sabatke, e ali estava o gipinho parado na frente do restaurante. Eu disse para o Soldado Bugre: você que também está armado vai lá e reviste o jipe, tem que ter um 45 lá; aí o Bugre foi e, realmente, o revólver estava no chão do jipe; eles não sabiam que era o promotor, nem eu não tinha certeza, estava em dúvida, falei para eles: – tem um desordeiro aí, vai ter novidade na cidade; o Bugre mostrou o revólver para o Cabo Adálio. Eles estavam em quatro, dava cinco comigo, então nós combinamos: -“eu vou entrar no restaurante para confirmar se ele é o promotor, qualquer coisa, eu grito, vocês fiquem aí fora”. Quando eu entrei, ele estava se servindo com um litro, não sei se era wisky ou o que era, e ele estava pra dentro do balcão, e estava desarmado, pois o 45 tinha ficado no jipe. Quando ele me viu, disparou aquele litro contra mim, eu me abaixei no balcão e o litro foi dar na parede, se espatifando todo, aí eu gritei – “entra, rapaziada, tá aqui o bagunceiro”.

– Não, não, eu sou promotor…

– Nada disso, desça o pau, desça a borracha nesse desordeiro aí, olha aí o que ele fez aqui, queria me acertar; é homem muito valente, vamos fazer ele conhecer a lei daqui.

Os soldados desceram o couro, eu tive que pedir para parar de bater; bateram na sola do pé, na bunda, o homem ficou todo inchado.

Mauro – Desta vez o senhor não o levou para a farmácia para fazer curativo? (risos)

Partala – Não, desta vez não, o Cabo Adálio tinha um par de algemas e algemou os braços dele; as pernas, amarraram com uma corda que eu tinha dentro da minha Rural; amarramos ele e jogamos em cima do pneu socorro que eu tinha dentro da Rural e fomos para Canoinhas, lá no comando da Polícia Militar. Eu e o Cabo Adálio chegamos lá e falamos: – “olha, trouxemos um bandido aqui, estava querendo esculhambar a cidade, eu pensei que era um amigo, mas não o conhecia; mexeu um copo de cachaça com o cano do revólver e queria que eu tomasse na marra, depois eu tive que dar um beijo naquele copo”, enfim, contei tudo para o Capitão. Este falou – desçam esse cara, eu quero ver. Quando ele desceu não dava pra ver a cara, estava cheia de poeira, a estrada ainda era de chão, entrava poeira na Rural.

Que horas são? Tem gente me esperando em casa para o almoço.

Mauro –Meio dia. E como terminou a história?

Partala – A história terminou assim: o Capitão passou um telegrama para Florianópolis, o revólver não sei o que foi feito; o Capitão ficou com o tal promotor lá em Canoinhas, mas nós surramos bastante ele; acho que o Capitão mandou levar esse cara para Florianópolis. Ele dizia ser promotor, mas não tinha documentos; nunca mais vi o cara. Mas perdeu a promotoria.

Mauro – Então até hoje não sabem se era mesmo um promotor?

Partala – Não sei, bem provado mesmo, não sei se era. 

Mauro – Seu Partala, com certeza o senhor ainda tem muitas histórias para nos contar; na próxima vez vai almoçar com a gente. Mais uma vez, obrigado pela entrevista e conte sempre conosco.

Partala – Eu é que agradeço, vamos continuar essa conversa numa outra oportunidade.                       

Search  Search

View More Results…